Há uma pobreza que nenhuma estatística de renda mede: a pobreza do discernimento. Ela se manifesta quando o eleitor, diante de provas, delações e condenações, absolve o político por conveniência e converte o desvio em virtude. Não se trata de ignorância, que o acesso à informação remediaria, mas de uma recusa em examinar, em que a lealdade a uma figura ou a uma tribo vale mais que a verdade dos fatos.
O fenômeno é conhecido da psicologia política: o viés de confirmação leva a aceitar apenas o que ratifica a crença prévia, e o raciocínio motivado transforma toda acusação em perseguição e todo flagrante em armação. Assim, o corrupto que se veste de probo, que ostenta a honestidade como slogan enquanto a nega nos atos, encontra plateia disposta a aplaudi-lo. O eleitor que celebra essa encenação não é vítima passiva do engano; torna-se, de algum modo, coautor dele.
A democracia pressupõe cidadãos capazes de julgar. Quando o voto deixa de ser avaliação de conduta e vira torcida, o mandato deixa de ser delegação e vira cumplicidade. Cada voto concedido a quem lesa o erário é pago por quem depende de hospital, escola e segurança, geralmente os mais pobres. Combater a corrupção começa, portanto, na urna e na consciência: exigir coerência entre discurso e prática, desconfiar de quem se proclama honesto e examinar fatos antes de aplaudir.
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