Na rua das Pitangueiras, em Brasília, o ano era 1983 e o tempo parecia gravado em fita K7.
Helena tinha dezessete anos, cabelos cortados à la Diana e uma coleção de discos da Legião Urbana ainda em compacto simples. Rafael tinha dezenove, calça Lee desbotada, um Chevette 76 que só pegava no tranco e um sonho de passar no vestibular de Arquitetura na UnB.
Amavam-se como se amava nos anos 80: na calçada, sob o poste de luz amarela, trocando cartas dobradas em quatro e gravando músicas um para o outro no rádio gravador. Ele gravou para ela “Eu preciso te falar que eu te amo” do Cazuza, com o chiado da FM no fundo. Ela gravou para ele “Total Eclipse of the Heart”, que tocava incessantemente na Rádio Atlântida.
Naquele verão, Rafael conseguiu estágio num escritório de engenharia no Plano Piloto. Lá conheceu Sônia. Sônia tinha vinte e três anos, usava saia lápis, dirigia um Passat branco e sabia falar de Niemeyer e de jazz. Sônia não era uma menina; era uma mulher. E para um rapaz de dezenove anos, uma mulher que lhe oferece um cigarro Hollywood e lhe diz que ele tem “olhos de artista”, é um abismo impossível de não olhar.
A traição não foi carnal, a princípio. Foi de ideal. Foi o almoço demorado. O carona que ele aceitou. O telefonema da sala comercial para a casa de Helena, dizendo que ficaria até mais tarde.
Helena sentiu antes de saber. As mulheres sempre sentem. O perfume diferente no banco do Chevette. O fato de ele não cantarolar mais quando a via. O disco da Rita Lee que ele não quis ouvir.
Numa tarde de sábado, com o céu de Brasília azul-cerâmica, ela o esperou na porta do escritório. Viu-os sair. Viu Sônia rir tocando o braço dele. Viu Rafael rir como ele nunca ria com ela — um riso de homem, não de menino.
Não houve escândalo. Helena, em sua linguagem culta e contida, herdada da mãe professora de português, apenas disse:
“Rafael, tu levaste os meus vinis e deixaste o chiado.”
Ele não entendeu. Ela explicou:
“Levaste o sonho e deixaste o ruído. A magia era nós dois escutando a mesma canção, mesmo com a interferência do mundo. Agora só há interferência.”
Terminaram ali, na parada do 304 Sul, entre um ônibus e outro. Ele voltou para Sônia por quinze dias. Quinze dias foram suficientes para descobrir que Sônia gostava de jazz, mas não gostava dele. Que o Passat branco não era dele. E que nenhuma mulher de vinte e três anos esperaria um rapaz de Chevette 76 que sonhava em ser arquiteto.
Em dezembro, Rafael bateu à porta de Helena com uma fita virgem. Na capa, escrito à mão: “Para Helena, lado A e lado B”.
Ela abriu a porta, mais bela, com o cabelo agora um pouco mais comprido. Olhou para a fita, olhou para ele e disse com a serenidade que só a dor ensina:
“O lado A já tocou, Rafael. Não há como rebobinar sem que a fita enrosque. Vai, guarda tua canção para outra.”
E fechou a porta. No rádio, lá dentro, tocava “Por que a gente é assim?”.
Ele entendeu, enfim, que há traições que não se perdoam não por falta de amor, mas por excesso de amor-próprio recuperado. E que, nos anos 80 como hoje, o amor acaba não quando o outro mente, mas quando nós finalmente aprendemos a ouvir a verdade no chiado.